Neste século, mais do que transmitir informações, é preciso formar humanos que tenham criticismo, que saibam se comunicar, que sejam cooperativos e que exerçam a sua criatividade.

Por Michele Bravos, para o Instituto Aurora

Você reparou que no subtítulo deste artigo a gente trouxe quatro palavras que começam com a letra C? São elas: criticismo, comunicação, cooperação e criatividade. Juntas, elas formam os 4 C’s da educação do século XXI. O termo deriva de um movimento global que advoga por adaptações na educação a partir das “competências do século XXI”. 

A organização National Education Association (NEA), em português Associação Nacional de Educação, baseada nos Estados Unidos, é uma das principais vozes na causa há mais de 10 anos. Com o passar do tempo, foi identificado que as competências do século XXI poderiam se resumir em quatro competências fundamentais que são os 4 C’s listados acima. 

De acordo com a organização NEA, o desafio atual é promover na prática o desenvolvimento dessa habilidades. Se concordarmos com o historiador e escritor Yuval Harari, que o ser humano já é essas competências, elas só precisam ser otimizadas, como afirma em seu livro 21 lições para o século XXI, podemos lançar um olhar esperançoso para o presente e futuro da educação, assim como presumir onde devem se concentrar os esforços nessa área. 

Será que o professor de hoje, do século XXI, deve ser formado para repassar conteúdos disponíveis na internet – ao alcance dos dedos de quase todos os seus alunos –  ou ele deve ser formado para impulsionar o desenvolvimento de certas habilidades intrínsecas a cada ser humano e que precisam ser garimpadas e lapidadas com uma ajuda externa?

Nesse sentido, a professora, o professor acaba sendo chamado para ser um curador de conteúdo e um proponente de mudanças muito mais do que um transmissor de informações. O desenvolvimento das competências do século XXI nos dá condições de apresentar uma educação pautada em direitos humanos, uma vez que os 4C’s têm como premissa as relações humanas e a coexistência em um mundo repleto de diferenças. Tanto as competências do século XXI quanto às abordagens da educação em direitos humanos tentam minimizar o individualismo e enfatizar uma construção plural de sociedade. 

De acordo com o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, educar em direitos humanos se traduz em: 

a) fortalecer o respeito aos direitos humanos e liberdades fundamentais; 

b) promover o pleno desenvolvimento da personalidade e dignidade humana; 

c) fomentar o entendimento, a tolerância, a igualdade de gênero e a amizade entre as nações, os povos indígenas e grupos raciais, nacionais, étnicos, religiosos e linguísticos; 

d) estimular a participação efetiva das pessoas em uma sociedade livre e democrática governada pelo Estado de Direito; 

e) construir, promover e manter a paz.

Criticismo 

Muitos são os nomes que são dados para esse período da humanidade em que estamos vivendo: Era da Informação, Era da Pós-Modernidade, Era da Pós-Verdade, Era dos Dados. Seja qual for a nomenclatura escolhida, elas revelam duas características importantes para esse momento: o volume de informações que chegam até nós e a dúvida acerca da veracidade dessas informações.

Diante disso, podemos dizer que as crianças educandas do século XXI não carecem de informação, mas de senso crítico para avaliar o teor dessas informações e os efeitos desse conteúdo. 

O primeiro C abordado aqui, o criticismo, portanto, deve estar focado no exercício e no ensino da curadoria de informações. O professor, enquanto curador de conteúdo, compartilha com os estudantes como eles podem, por si próprios, desenvolver a habilidade de filtrar. 

Com os avanços da inteligência artificial, os algoritmos estão programados para nos apresentar mais daquilo que nos interessa. Ou seja, não podemos esperar de um algoritmo que ele nos direcione para uma página sobre antirracismo, quando tudo o que consumimos está relacionado a supremacia branca, por exemplo. 

Um ponto fundamental nesse aspecto é o professor exercer uma curadoria plural e, consequentemente, estimular com que os filtros dos estudantes também sejam plurais. 

Ao estimular o desenvolvimento do senso crítico, os estudantes precisam estar confiantes para: 

  1. Perguntar com o intuito de buscar evidências de vários pontos de vista; 
  2. Interpretar informações e formar a sua opinião baseada em análises.

Comunicação

Os seres humanos são seres comunicativos, mas nem sempre essa comunicação é efetiva. Para existir o que chamamos de comunicação é preciso que haja alguém emitindo uma mensagem, alguém recebendo essa mensagem e uma mensagem em si. No entanto, nesse percurso, por vezes a mensagem está carregada de ruídos, que impedem a sua compreensão. Esses ruídos podem ser, por exemplo, não compartilhar da mesma linguagem, ainda quando se fala o mesmo idioma. 

Já conversou com alguém da mesma nacionalidade que você, que fala o mesmo idioma que você, mas é de uma geração diferente da sua, e parece que a linguagem é outra? A pessoa usa termos que você não entende. Você fala coisas que ela pouco sabe o que são. 

Esses ruídos, geralmente, podem caracterizar conflitos. Se eles não forem acolhidos e transformados, o que começou com uma tentativa de conexão, pode terminar como uma completa desconexão. 

Saber reconhecer os nossos sentimentos e necessidades e também os dos outros, com quem estamos tentando nos comunicar, é primordial para evitar esses ruídos. Nesse sentido, desenvolver a empatia e a habilidade de escutar de forma ativa é tão importante quanto conseguir se expressar. 

O grande desafio da comunicação é traçar um caminho de conexão sustentável, que não se rompe facilmente. 

Crianças e adolescentes que são incentivados a exercitar a sua habilidade de se comunicar, devem estar preparadas para: 

  1. Escutar com atenção e decodificar os sentimentos e necessidades compartilhados;
  2. Expressar-se de maneira desenvolta, considerando complexas interações como em situações que demandam explicações, negociações e mediações. 

Colaboração

No século XXI, parece que vivemos em bolhas em que, naturalmente, só interagimos com quem está nesse mesmo espaço aparentemente seguro que a gente. Mais do que romper essas bolhas, precisamos unir nossas bolhas. Tocarmos outras superfícies e, aos poucos, nos misturarmos mais, aprendendo a ser mais colaborativos. 

Colocar-se em contato com quem é diferente de nós e respeitar essas diferenças faz parte de um caminho de construção para uma sociedade menos desigual e que valoriza a colaboração em vez da competição. Quando assumimos o discurso de que queremos um mundo mais justo, mais pacífico, precisamos abraçar e praticar ações que contribuem para essa obra. 

Em um mundo multicultural como o que estamos vivendo, a educação pode ser intencional em promover espaços de diálogo interculturais, em que o convívio com as diferenças é valorizado. E, a partir desse relacionamento, os pontos em comum também são traçados e evidenciados. 

Por meio dessa perspectiva intercultural, em que nossas vidas são compreendidas de forma mais sistêmica, um outro conceito emerge: autorresponsabilidade. Esse termo sugere que as nossas ações individuais têm impacto direto no coletivo e que cabe a cada um de nós assumir a responsabilidade por mudanças que estão ao nosso alcance. 

Quando falamos de equidade de gênero, por exemplo, cabe também aos homens assumir a parcela de responsabilidade que lhes diz respeito nessa construção social. Quando um homem com autorresponsabilidade é convidado para um congresso em que não há diversidade entre os palestrantes, ou seja, só há um único perfil com poder de fala, é preciso que esse convidado com autorresponsabilidade se posicione perante a organização do evento dizendo que se recusa a participar de um congresso que não valoriza outras trajetórias de vida e perspectivas de mundo e indicando nomes que tornem o evento mais plural.

Ao participar de espaços interculturais que desenvolvem a colaboração, os estudantes devem se sentir seguros para: 

  1. Exercitar a flexibilidade em situações difíceis em que seja necessário assumir um objetivo em comum;
  2. Assumir a autorresponsabilidade e valorizar o compromisso assumido por cada indivíduo do grupo. 

Criatividade

Diz respeito a elevar o potencial das ideias, criando e reconhecendo novos paradigmas, novos padrões de convívio social, novos significados. Vivemos um tempo de reformulação de muitos conceitos e as crianças e adolescentes do século XXI devem ser capazes de contribuir para essa ressignificação pautados em valores éticos que promovam uma cultura de direitos humanos, em que todas as pessoas são reconhecidas como dignas. 

Já sabemos que são as ideias que movem o mundo, porque são elas que moldam os nossos pensamentos e, consequentemente, os nossos comportamentos. 

A criatividade, por sua vez, é antecedida pelo processo imaginativo. O fundamento da criatividade é a imaginação. É nesse mesmo terreno que mora o desenvolvimento da empatia, a qual permeia todas as habilidades anteriores. 

Os estudantes que estão inseridos em dinâmicas que desenvolvem a imaginação e a criatividade podem:

1. Criar, reconhecer e tornar reais novos padrões sociais alinhados com uma cultura de direitos humanos;

2. Criar e elucidar significados para que a sociedade possa se desenvolver com autonomia e ética.

É tempo de nos atualizarmos

Imaginar o outro permite com que tenhamos mais confiança para intervir em situações que violam os direitos de outras pessoas, a partir do exercício do senso crítico. Imaginar o outro nos leva a tentar reconhecer quais sentimentos e necessidades estão por trás de uma fala, expressão corporal ou silêncio e isso lapida a nossa habilidade de comunicação. Imaginar o outro pode nos fazer reconhecer o valor das diferenças para uma construção colaborativa de sociedade justa socialmente. Imaginar o outro nos direciona para o desenvolvimento da empatia e nos permite criar com valores éticos. 

O século XXI nos impulsiona para um momento de reformulação de nossas práticas, em especial na educação, com a inserção das competências desse século nas grades curriculares. A educação em direitos humanos é uma forte aliada nesse processo e, por isso, é tempo de nos atualizarmos e agirmos para mudanças. 

Compreendeu a importância da conexão entre a educação em direitos humanos e as práticas educativas no mundo em que vivemos hoje? Para saber mais sobre este tema, continue navegando em nosso blog!

Algumas referências que usamos nesse texto

DAVIDSON, Cathy.  Cathy N. Davidson: How to Revolutionize the University. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=2Av078xDTQo>. Acesso em 05 jun. 2020. 

National Education Association. An educator’s guide to the Four C’s. Disponível em: <http://www.nea.org/assets/docs/A-Guide-to-Four-Cs.pdf>. Acesso em 05 jun. 2020. 

(Foto por: Barbara Vanzo)

Pontes ou muros: o que você têm construído?
Em um mundo de desconstrução, sejamos construtores. Essa ideia foi determinante para o surgimento do Instituto Aurora e por isso compartilhamos essa mensagem. Em uma mescla de história de vida e interação com o grupo, são apresentados os princípios da comunicação não-violenta e da possibilidade de sermos empáticos, culminando em um ato simbólico de uma construção coletiva.
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Quem é você na Década da Ação?
Sabemos que precisamos agir no presente para viver em um mundo melhor amanhã. Mas, afinal, o que é esse mundo melhor? É possível construí-lo? Quem fará isso? De forma dinâmica e interativa, os participantes serão instigados a pensar em seu sistema de crenças e a vivenciarem o conceito de justiça social. Cada pessoa poderá reconhecer suas potencialidades e assumir a sua autorresponsabilidade.
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A vitória é de quem?
Nessa palestra permeada pela visão de mundo delas, proporcionamos um espaço para dissipar o medo sobre palavras como: feminismo, empoderamento feminino e igualdade de gênero. Nosso objetivo é mostrar o quanto esses termos estão associados a grandes avanços que tivemos e ainda podemos ter - em um mundo em que todas as pessoas ganhem.
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Liberdade de pensamento: você tem?
As projeções para o século XXI apontam para o exponencial crescimento da inteligência artificial e da sua presença em nosso dia a dia. Você já se perguntou o que as máquinas têm aprendido sobre a humanidade e a vida em sociedade? E como isso volta para nós, impactando a forma como lemos o mundo? É tempo de discutir que tipo de dados têm servido de alimento para os robôs porque isso já tem influenciado o futuro que estamos construindo.
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Formações customizadas
Nossas formações abordam temas relacionados à compreensão de direitos humanos de forma interdisciplinar, aplicada ao dia a dia das pessoas - sejam elas de quaisquer áreas de atuação - e ajustadas às necessidades de quem opta por esse serviço.
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Consultoria em promoção de diversidade
Temos percebido um movimento positivo de criação de comitês de diversidade nas instituições. Com a consultoria, podemos traçar juntos a criação desses espaços de diálogo e definir estratégias de como fortalecer uma cultura de garantia de direitos humanos.
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Minha empresa quer doar
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