Já passou da hora de colocarmos o cocar no seu devido lugar. Vamos entender a importância de celebrar o Dia do Índio nas escolas de forma transformativa para uma apreciação cultural devida

Por Monique Munarini, para o Instituto Aurora

Felizmente a educação brasileira evoluiu para não ensinar mais que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil e que o Dia do Índio é mais que uma data para se fantasiar de índio e imitar a dança da chuva. Mas, afinal, como devemos abordar essa data?

Inicialmente, é importante destacar que no Brasil o Dia do Índio foi estabelecido em 1943 por Getúlio Vargas, para ser celebrado em 19 de abril. Essa data foi proposta no Primeiro Congresso Indigenista das Américas, que ocorreu no México em 1940. Atualmente, começamos a ver algumas referências ao dia 19 de abril como o Dia dos Povos Indígenas. A ONU, por sua vez, instituiu uma data internacional, propondo a celebração do Dia Internacional dos Povos Indígenas, em 09 de agosto – data que foi adotada por países latinos como a Argentina e o Equador. A data estabelecida pela ONU não possui apenas o escopo de promover a diversidade e a rica herança cultural destes povos, mas também de utilizar as celebrações e eventos como indicadores para  analisar o engajamento dos países e sociedade civil a respeito do tema.

O professor Daniel Munduruku defende que o Dia do Índio celebrado no Brasil se tornou mais uma data folclórica do “índio preguiçoso que mora na oca e anda semi desnudo” do que um dia para celebrar a existência e resistência dos povos originários. Infelizmente, muitas pessoas ainda possuem a ideia de que, para um brasileiro ser considerado indígena, ele deve se encaixar no estereótipo mantido pelo imaginário popular: deve viver na aldeia, usar um cocar de penas e não usar tecnologia de modo a não “renegar” suas origens.

O início do planejamento para a celebração da diversidade cultural dos povos indígenas é a desconstrução do imaginário caricato de um indígena, de forma a estabelecer que existem inúmeros povos e que cada um escolheu a sua forma de interagir com o restante da sociedade atualmente presente no Brasil. Há comunidades que são totalmente integradas com a nossa realidade, assim como aquelas que possuem um certo nível de afastamento e outras que preferem se manter isoladas.

Os dados oficiais da FUNAI e do IBGE mais atualizados são de 2010, e já naquela época a população indígena era formada por mais de 800.000 pessoas, sendo que em torno de 40% viviam em zonas urbanas. Ainda, das línguas que foram possíveis serem catalogadas, existiam 274 línguas indígenas. O maior grupo indígena é a tribo Guarani, mas há outros que desempenham um grande papel de mediatização da cultura indígena mundialmente como os Mebêngôkre, conhecidos pelos não-indígenas como Kayapós, representados pelo líder Raoni Metuktire.

Existe diferença entre os termos índio e indígena?

O termo “índio” é originário do tempo da colonização diante da invasão das Américas na busca por uma melhor rota para as índias. Este termo faz uma referência genérica aos povos aqui encontrados e hoje é visto como uma forma de alienação quanto à diversidade cultural dos povos originários. 

Já o termo “indígena”, conforme o dicionário Michaelis, define  quem é originário de um país ou região, natural de onde habita. Assim, o termo indígena remete não apenas a ideia do passado colonizador, dos povos que foram aqui encontrados e dizimados, mas da manutenção de uma identidade ligada ao lugar, o pertencimento a uma tribo.

Inclusive é importante fazer essa diferenciação para que haja a compreensão de que os indígenas não fazem apenas parte da história do Brasil, eles são originários desta terra, integrantes deste território.

Lembrarmos o ontem para celebrarmos o hoje e lutar pelo amanhã

Ainda que os povos originários façam parte da nossa população e que a nossa vida gire em torno de inúmeras heranças culturais desses povos, como nomes de cidades, costumes e comidas, a importância deles na construção do que hoje podemos chamar de povo brasileiro restou apagada, ou quando mencionada, traça linhas gerais que acabam por perder nomes e rostos.

Desta forma, um excelente modo de valorizar a cultura indígena é espalhando o nome daqueles que a história acabou por excluir dos livros didáticos. Um deles é de Madalena Caramuru. 

Madalena viveu na época do Brasil colônia do século XVI, uma época em que as mulheres eram tidas como instrumentos de procriação e manutenção da família. Ela era filha do português conhecido como Caramuru e da indígena tupinambá Paraguaçu. Em razão do seu casamento com o português Afonso Camargo em 1534, Madalena teve a oportunidade de aprender a ler e a escrever. Segundo historiadores, como Francisco Varnhagen, ela foi a primeira mulher brasileira alfabetizada que se tem conhecimento. A razão da descoberta foi que além de mulher de origem indígena, ela lutou pelos direitos do seu povo, pedindo ao chefe da missão jesuíta, Padre Manuel de Nóbrega, que interviesse quanto aos maus tratos de crianças indígenas e pela educação feminina por meio da catequese. Infelizmente, a educação de meninas só foi concretizada dois séculos mais tarde.

A história dessa brasileira que lutou por direitos que hoje são considerados no rol de direitos humanos como universais e inalienáveis, tais como direito à dignidade da pessoa humana, educação para meninas e igualdade de gênero, infelizmente, se perdeu. A transmissão desse legado de luta é nossa tarefa para perpetuar as contribuições dos povos originários do Brasil. 

O respeito à diversidade cultural como instrumento para concretização dos direitos humanos dentro das escolas

Temas como diversidade cultural e os conceitos de apropriação cultural e diversidade cultural são polêmicos desde a Assembleia Geral da ONU até as salas de aula, mas sua abordagem é essencial para entender a realidade brasileira.

O Brasil ratificou diversos tratados internacionais sobre o respeito da diversidade cultural e a proteção do chamado patrimônio imaterial, mas a entrada dessa temática nas pautas de ensino ainda faz uma falta latente no nosso sistema educacional.

O respeito às diferenças em nossa sociedade é um instrumento de concretização dos direitos humanos por meio de uma proposta intercultural. Para isso, é essencial diferenciar a exaltação de uma cultura como forma de apreciação e uma apropriação como forma de depredação.

É importante distinguir a ideia de apropriação e apreciação cultural, sendo a apropriação uma forma de usar objetos ou se referir a elementos de uma cultura não dominante de maneira a desrespeitar o seu significado, não dar crédito à sua origem ou mesmo reforçar estereótipos que mantenham a opressão dessa minoria. Enquanto a apreciação é a exaltação da cultura com a promoção da diversidade de um povo.

Já passou da hora de entendermos que cocar deve ser usado por aqueles que têm legitimidade para isso. Devemos fazer dele um elemento de valorização de uma cultura rica e diversa, e não um adereço de festa.

Agora que você já entendeu a importância de trazer esses assuntos para a discussão na celebração do “Dia do Índio”, que tal começar a chamá-lo de Dia dos Povos Indígenas e também começar a pensar em formas interdisciplinares de unir arte, história, línguas, geografia, para apreciar a importante história e herança cultural que partilhamos com os povos originários? Aproveite também para ler outros artigos de conteúdo educativo em nosso blog.

E aqui você encontra algumas referências que utilizamos para escrever esse texto e que vão ser úteis na sua jornada:

CUNCIC, Arlin. what is cultural apropriation?. Disponível em: https://www.verywellmind.com/what-is-cultural-appropriation-5070458. Acesso em 26 de março de 2021.

IBGE. O brasil indígena. Disponível em:  https://indigenas.ibge.gov.br/estudos-especiais-3/o-brasil-indigena/download. Acesso em 26 de março 2021.

LANGFELDT, Marcia. Entrevista realizada com Daniel Munduruku em 21 de mar. de 2015 como parte da pesquisa “L’Amazonie et les impasses de la civilisation : lecture critique des récits de voyage du début du XXème siècle.”. Disponível em: https://hal-univ-paris3.archives-ouvertes.fr/hal-01494922/file/Daniel%20Munduruku%2018-05-2016.pdf . Acesso em 20 de março de 2021.

MICHAELIS. Indígena. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/indigena. Acesso em 26 de março de 2021.

MOURA, Analise S., DIEHL, Rodrigo C. Direitos humanos e diversidade cultural: o respeito à diferença no mundo globalizado por meio da educação. Disponível em: https://online.unisc.br/acadnet/anais/index.php/sidspp/article/viewFile/16037/3927. Acesso em 20 de março de 2021.

Playlist sobre o dia do índio/ povos indígenas da Fafá conta histórias no Youtube: http://bit.ly/fafaindigenas 

SOUZA, Duda Porto de et. al. Extraordinárias: mulheres que mudaram o brasil. Seguinte: 2017.

Pontes ou muros: o que você têm construído?
Em um mundo de desconstrução, sejamos construtores. Essa ideia foi determinante para o surgimento do Instituto Aurora e por isso compartilhamos essa mensagem. Em uma mescla de história de vida e interação com o grupo, são apresentados os princípios da comunicação não-violenta e da possibilidade de sermos empáticos, culminando em um ato simbólico de uma construção coletiva.
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Quem é você na Década da Ação?
Sabemos que precisamos agir no presente para viver em um mundo melhor amanhã. Mas, afinal, o que é esse mundo melhor? É possível construí-lo? Quem fará isso? De forma dinâmica e interativa, os participantes serão instigados a pensar em seu sistema de crenças e a vivenciarem o conceito de justiça social. Cada pessoa poderá reconhecer suas potencialidades e assumir a sua autorresponsabilidade.
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A vitória é de quem?
Nessa palestra permeada pela visão de mundo delas, proporcionamos um espaço para dissipar o medo sobre palavras como: feminismo, empoderamento feminino e igualdade de gênero. Nosso objetivo é mostrar o quanto esses termos estão associados a grandes avanços que tivemos e ainda podemos ter - em um mundo em que todas as pessoas ganhem.
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Liberdade de pensamento: você tem?
As projeções para o século XXI apontam para o exponencial crescimento da inteligência artificial e da sua presença em nosso dia a dia. Você já se perguntou o que as máquinas têm aprendido sobre a humanidade e a vida em sociedade? E como isso volta para nós, impactando a forma como lemos o mundo? É tempo de discutir que tipo de dados têm servido de alimento para os robôs porque isso já tem influenciado o futuro que estamos construindo.
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Formações customizadas
Nossas formações abordam temas relacionados à compreensão de direitos humanos de forma interdisciplinar, aplicada ao dia a dia das pessoas - sejam elas de quaisquer áreas de atuação - e ajustadas às necessidades de quem opta por esse serviço.
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Consultoria em promoção de diversidade
Temos percebido um movimento positivo de criação de comitês de diversidade nas instituições. Com a consultoria, podemos traçar juntos a criação desses espaços de diálogo e definir estratégias de como fortalecer uma cultura de garantia de direitos humanos.
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Minha empresa quer doar
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