A Amazônia não é apenas a maior floresta tropical úmida do mundo e detentora da maior biodiversidade conhecida; é também um dos últimos grandes espaços vitais ainda disponíveis no planeta, responsável por manter o equilíbrio ecossistêmico de outras regiões.
Conhecida por sua capacidade autossustentável, consumindo os nutrientes que produz, a floresta amazônica também é um sumidouro de carbono, quase que como um/ “depósito natural”, com alta capacidade de absorção do CO2 presente na atmosfera – um dos principais gases responsáveis pela intensificação do efeito estufa e pelo agravamento das mudanças climáticas.
Embora seja comum associarmos a Amazônia apenas à floresta, ela é, predominantemente, urbana (cerca de 70%). Hoje, então, nós temos duas grandes “Amazônias”: a Amazônia Urbana, com as grandes cidades, regiões metropolitanas e municípios menores, e a Amazônia chamada “de dentro”, a qual comporta a Amazônia rural e floresta amazônica, onde se tem majoritariamente o manejo da pesca, pecuária e extrativismo sustentável.
Em ambas as “Amazônias”, prevalece o respeito aos conhecimentos e saberes tradicionais dos povos originários. É dentro da floresta, no entanto, que comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas da Amazônia ainda mantém seus saberes longe das interferências e interesses do homem colonizador.
Na Amazônia urbana, o inchaço causado pelo intenso êxodo rural no final do século XX, motivado por melhores condições de vida e planos governamentais, como a construção da Transamazônica, ajudou a construir cidades desordenadas e com altas taxas de periferização, uma vez que esse processo não foi acompanhado da articulação de políticas públicas adequadas para receber toda essa gente.
Na Amazônia da floresta, o acirramento das mudanças climáticas causado pelo desmatamento e mudança do uso do solo, avanço da agropecuária e extração de madeira ilegal, fez com que a floresta, que antes absorvia carbono da atmosfera, começasse a liberá-lo. Nesse cenário, a floresta está se tornando mais emissora que sequestradora de gás carbônico.
Portanto, além da enorme perda da biodiversidade e serviços ecossistêmicos vitais para a nossa sobrevivência, como a manutenção da temperatura e umidade das regiões do entorno da floresta – diminuição do fenômeno dos rios voadores –, há um desequilíbrio ecossistêmico em decorrência da perda de sua capacidade de retenção de carbono.
Além da agropecuária extrativista, outro fator determinante para o desequilíbrio energético na região amazônica é a mineração, que também contribui significativamente para os índices de desmatamento na região (cerca de 10% do total; número referente à Amazônia brasileira). Um ponto importante a ser ressaltado é que 90% desse desmatamento ocorreu fora de áreas de concessão, ou seja, fora do limite estabelecido pela Agência Nacional de Mineração (ANM).
A riqueza mineral, aliada aos incentivos fiscais oferecidos pelos últimos governos, acarretou a instalação de grandes empresas mineradoras na região. Mas, não só isso. O extrativismo mineral, majoritariamente realizado de maneira desenfreada e sem análise de riscos e impactos, veio acompanhado de crimes ambientais sem precedentes.
Possivelmente alguém já ouviu falar nas grandes empresas Norsk Hydro e Vale e dos impactos ambientais causados por suas atividades. A Norsk Hydro é uma empresa norueguesa que, atualmente, mantém suas atividades em Paragominas e Barcarena, ambos municípios do estado do Pará, com extração de bauxita, alumínio e alumina. Já a mineradora Vale é reconhecida na região sudeste do Pará pelo famoso Projeto Carajás, com extração de ferro, níquel e cobre em larga escala.
Em 2009, a barragem da Hydro-Alunorte se rompeu em Barcarena (PA), contaminando os rios da região com resíduos da mineração e afetando a saúde da população local. Apenas em 2024, a Justiça Federal condenou a empresa a pagar R$ 100 milhões pelo desastre ambiental causado.
A Vale, por sua vez, também acumula diversas denúncias de crimes ambientais por suas atividades, incluindo a contaminação provocada à comunidade indígena Xikrin do Cateté pelas atividades da mina de níquel Onça-Puma, na região da Serra dos Carajás. Em 2025, o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública contra a mineradora.
Nesse cenário, é importante fazer um recorte: as mulheres amazônidas, as quais entendo como a verdadeira face da floresta, são as mais afetadas pelo desequilíbrio energético provocado pelas atividades predatórias na região. Em geral, amazônidas ou não, mulheres e crianças sofrem desproporcionalmente os impactos das mudanças climáticas, em comparação ao restante da população.
As mulheres da Amazônia, ao passo que carregam consigo a responsabilidade pela reprodução e manutenção de saberes e práticas ancestrais e, por isso mesmo lideram soluções para o enfrentamento às mudanças climáticas na Amazônia, estão especialmente vulneráveis diante da expansão desenvolvimentista e destruidora da floresta, incluindo a diminuição de recursos básicos e o aumento da violência de gênero.
De modo concomitante às violências, o território amazônico também promove encontros de batalhas e saberes. Hoje, as comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas e extrativistas encontram a sociedade civil organizada e a comunidade acadêmica comprometida. Por vezes, as duas faces da Amazônia se encontram em uma ciranda potente pela nossa sobrevivência.
Buscamos, acima de tudo, o respeito ao metabolismo socionatural da terra, aos ciclos naturais e retomada de um modelo de economia fundamentado na vida natural. Em oposição à ruptura metabólica – quebra dos ciclos naturais provocada pelo desenvolvimentismo desenfreado –, imaginamos uma sociedade do Bem Viver, noção indígena tradicional, onde o verdadeiro compromisso é com a vida, jamais com o lucro.
As alternativas para o enfrentamento da situação vigente parecem ser aquelas que Krenak já havia nos falado em “Futuro Ancestral”: olhar para o passado não com o olhar saudosista de quem quer seu retorno, mas valorizando e reconhecendo o conhecimento dos povos que vieram antes de nós – porque não precisamos inventar alternativas: elas já estão dadas e bem diante de nós; só precisamos desacelerar e ouvir.
REFERÊNCIAS
SONTER, Laura J. et al. Mining drives extensive deforestation in the Brazilian Amazon. Nature Communications, [s. l.], v. 8, art. 1013, 2017. DOI: https://doi.org/10.1038/s41467-017-00557-w. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41467-017-00557-w. Acesso em: 27 ago. 2026.
BRASIL. Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Seção Judiciária do Pará. Empresa norueguesa é condenada pela Justiça Federal a pagar R$ 100 milhões por desastre ambiental. SJPA, Belém, 10 jul. 2024. Disponível em: https://www.trf1.jus.br/sjpa/noticias/empresa-norueguesa-e-condenada-pela-justica-federal-a-pagar-r-100-milhoes-por-desastre-ambiental. Acesso em: 27 ago. 2026.
BRASIL. Ministério Público Federal. Procuradoria da República no Pará. MPF processa Vale, União e estado do Pará pela contaminação dos indígenas Xikrin do Cateté por metais pesados. Ministério Público Federal, Belém, 24 fev. 2025. Disponível em: https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/pr-pa/noticias/mpf-processa-vale-uniao-e-estado-do-para-pela-contaminacao-dos-indigenas-xikrin-do-catete-por-metais-pesados. Acesso em: 27 ago. 2026.
SPOTLIGHT INITIATIVE. Colliding crises: how the climate crisis fuels gender-based violence. [S. l.]: Spotlight Initiative, abr. 2025. 19 p. Disponível em: https://www.spotlightinitiative.org/publications/colliding-crises-how-climate-crisis-fuels-gender-based-violence. Acesso em: 27 ago. 2026
